Amizade que se torna amor tem grande possibilidade de sucesso

Muita gente tem uma visão romântica da ligação amorosa e acha que ela acontece quando uma atração súbita domina duas pessoas. Claro que um encontro desses, mágico, pode levar a uma relação duradoura. No entanto, o namoro entre pessoas que já se conhecem, aos poucos se interessam uma pela outra e se apaixonam, aumenta bastante as possibilidades de um final feliz.

Se você nunca passou por uma experiência de amor à primeira vista, não se preocupe. Talvez tenha um estilo de amar conhecido como estorge, palavra que vem do grego e significa amor sem loucura, sem febre. O termo foi descrito em 1988 pelo sociólogo canadense John Alan Lee e refere-se a pessoas que não se sentem à vontade diante da ideia de flertar com um desconhecido. Estórgicos têm uma vantagem ao darem a largada para um relacionamento. É o amor à milésima vista: além de mais seguro, pode ser tão intenso quanto o iniciado por impulso. O sentimento se opõe à ideia romântica que muitos nutrem a respeito do amor à primeira vista. Este, imaginam, resulta de uma química instantânea, que inunda a pessoa de paixão e cegueira por alguém que surgiu de repente em sua vida.

Estórgicos costumam ser mais “pé no chão”, menos ansiosos e não se deixam influenciar pelo brilho externo de nosso mundo consumista, em que as ligações amorosas se multiplicam rapidamente. Resistem aos tempos e preferem conhecer melhor o possível parceiro. Para eles, o ambiente de trabalho, da escola, da família ou do condomínio onde moram é mais propício do que bares, praias, boates, baladas. De fato, pesquisas revelam que o caminho trilhado com maior freqüência pelos casais é o de transformar em amor os sentimentos positivos por alguém conhecido. O amante estórgico dedica-se a estreitar gradativamente o vínculo com o colega ou a pessoa amiga. Sem generalizar, merece atenção a velha crença “entre um homem e uma mulher não existe amizade”. Pois quando se pensa em amigos pressupõem-se afinidades, um compartilhar de ideias, confiança, bem-estar, hábitos e valores comuns ou aceitos. E, para alguns, isso é mais interessante do que renovar o desafio de fugazes conquistas amorosas.


Não pense, de outro lado, que se interessar por alguém já próximo significa aproximação morna. Amizade que vai virando amor provoca impacto e excitação, especialmente devido à surpresa diante dos novos sentimentos pela mesma pessoa. E, embora a atração venha aos poucos, a percepção da paixão é súbita. Em conseqüência, não raro surgem dúvidas, “frios na barriga”, taquicardia e todas as outras manifestações a que uma grande paixão tem direito.



É claro que encontrar o parceiro em um ambiente conhecido tem riscos: a amizade pode ficar abalada diante de uma tentativa não correspondida de romance; ou se um dos dois decidir terminar o namoro. Também há risco de problemas em empresas que vetam relações amorosas entre funcionários.


No entanto, diversos aspectos positivos do amor à milésima vista se impõem: as oportunidades são mais freqüentes, o que ajuda a viabilizar o romance; e os dois sabem melhor em que terreno pisam. Pense na situação oposta, daqueles que acabam de se conhecer. Como algumas aves que ganham uma plumagem especial, têm trinados diferentes ou exibem vôos especiais como tática de sedução, o homem e a mulher usam estratégias de conquista. Para seduzir um recém-conhecido, ambos, além de idealizar o outro, valorizam as próprias qualidades e escondem os defeitos. E vale tudo: doçura, paciência, alto astral. Já o estórgico sai na frente. Conhece a personalidade do outro, o que evita as grandes decepções. Claro que, para transformar amizade em amor, novos arranjos são necessários, e podem advir descontentamentos. Há hábitos que achamos divertidos em um amigo, mas insuportáveis na relação amorosa. Além disso, é importante preservar a vida individual, para que a troca de experiências continue rica e interessante. De toda forma, os pontos comuns aos dois e a atitude de pé no chão do amor mais pensado favorecem a vida a dois e aumentam a chance de a união durar.