Você não deve levar muito a sério eventuais mentirinhas de seu amor

Não pretendo defender nem estimular os mentirosos. Mas acho que uma mentirinha de vez em quando não é problema. Também não é motivo para desentendimentos entre os casais. Parceiros que se amam de fato são capazes de distinguir entre mentiras sérias, como as que envolvem traições, e as mentirinhas do dia-a-dia, que às vezes não passam de uma forma de evitar brigas.

Muitas brigas de casais são desencadeadas por mentiras. Não vou tratar das grandes aqui, que envolvem traições, por exemplo. Refiro-me às mentirinhas do dia-a-dia, que costumam incomodar o parceiro. Ao mentir, a pessoa desperta desconfiança; em alguns casos, demora para recuperar a credibilidade. A mentira se torna, então, estopim de brigas desgastantes para o casal.

Alguns são radicais quando tratam do assunto: “Não suporto mentiras. Para mim, quem conta pequenas mentiras não merece confiança, pois mente também nas questões fundamentais.” Não é bem assim. Penso que há muitas formas de mentir, como também graus distintos de mentiras. E, se costumam causar brigas, vale a pena conhecer melhor o “mentiroso” antes de criticá-lo.

Para entender a questão e buscar harmonia, é importante desfazer alguns mitos. Ouvimos desde cedo que é feio mentir. Mas o fato é que também cedo aprendemos a usar o recurso. A criança vai descobrindo que a mentira pode ajudá-la a preservar-se. É ingênua a mãe que diz ao filho que mentira tem perna curta. Ele sabe que, na prática, só uma ou outra é descoberta. Em muitas situações, até se dá bem quando mente, evitando broncas ou punições paternas. Para sermos verdadeiros, temos de admitir que o grande mentiroso talvez seja quem diz que nunca mentiu. A maioria, senão todos, mente, por exemplo, para não magoar alguém. Também inventa histórias para fazer surpresa ao amado ou amada. De outro lado, às vezes se é obrigado a usar de “falsidade” para ser cordial. É a chamada “mentirinha social”. Muitos, ainda, pregam peças nos amigos no dia 1º de abril. É o uso lúdico da mentira. E por aí vai.

E quanto aos casais? Por que alguém mentiria ao parceiro? Será que a mentira pode ser inofensiva? Quando é prejudicial? A resposta é: depende não só do tipo, como também da freqüência e das motivações de quem as usa. Deixemos de lado os casos graves de mentirosos compulsivos, que mentem pois não conseguem parar de fazê-lo. Mitomania é uma doença, destrói relações e precisa de tratamento. Mas tais casos são minoria. O que mais existe e nos interessa aqui é a mentirinha boba, mas que abala os casais.

Não pretendo defender nem estimular os mentirosos, mas a verdade é que mentir de vez em quando não constitui problema. Há casos em que a pessoa faz de tudo para parecer mais interessante e tornar-se mais atraente para o parceiro. Conta um conto e aumenta um ponto; exagera nas histórias para ficar mais engraçada ou dramática; diz ter lido um livro sobre o qual jamais ouviu falar. Isso revela insegurança e baixa auto-estima de quem não se sente capaz de agradar alguém.

Outras vezes, entre os casais, a mentira pode ser uma forma — ainda que haja risco de ser descoberta — de apaziguar o parceiro ávido por discussões. Isso mesmo. Há os que dizem que uma mentirinha pode ser pacificadora. Quando o marido é questionado se sentiu atração pela nova funcionária, jura que não. Claro, conhece a mulher. Sabe que ela tenta começar uma briga e quer evitá-lo. Essa mentirinha “pacifista” também é muito usada se o marido ciumento insiste em ruminar situações do passado, em que sua mulher supostamente esteve envolvida com alguém. Aí não tem jeito. O ser humano tenta proteger-se para evitar atritos.

Por isso, se as mentirinhas de seu parceiro o incomodam, converse, diga o que sente. Também observe se a sua reação raivosa diante de uma verdade não funciona como reforço negativo quando ele (ou ela) está sendo sincero (ou sincera). Reações raivosas podem estimular a mentira. Mas tome cuidado para não perseguir a verdade o tempo todo. Isso também desgasta o casal. Pense que as pessoas têm segredos que devem ser respeitados. Você se lembra da infância, quando algum amigo inventava de iniciar o famigerado jogo da verdade? Via de regra, a brincadeira acabava em choro.