O sucesso do casamento pode vir da incerteza quanto ao final feliz

Muitos casais se apegam demais ao mito do final feliz no casamento difundido pelo cinema. Desejam-no tanto que têm medo de apontar defeitos no parceiro e enfrentar os problemas da relação. Desse modo, tendem ao fracasso. O sucesso de um relacionamento fica mais próximo de quem não se liga a tais fantasias e é capaz de construir a cada dia a união feliz. 


Por mais que os tempos mudem, a necessidade do final feliz para a relação amorosa ainda povoa o imaginário da maioria das pessoas. Se fosse um sonho de consumo, muitos gastariam até a última reserva para garantir o sucesso do casamento, fazendo valer a antiga frase “… e viveram felizes para sempre”.

Mas por que, a despeito de o amor eterno ser um grande desejo, boa parte dos casais se separa no primeiro ano de união? O que ocorre com tantas relações que terminam em grande decepção?

Desde a mais tenra idade, o ser humano se preocupa com o casamento, quer garantias de êxito, deseja o velho e bom final feliz. Quem já não ouviu, em festinhas infantis, crianças pequeninas especulando o Parabéns: ‘’ Com quem será que fulano vai casar?’’ A curiosidade começa cedo. Parece uma simples brincadeira, mas a criança já se mostra intrigada com a questão da escolha do parceiro e, mais do que isso, ocupa-se com jogos em que já vai elaborando a idéia de amar e ser amado. É o famoso ‘’ bem-me-quer ou mal-me-quer’’ da margaridinha.

Quanto a criança, tudo bem, ela precisa de algo concreto. É tudo ou nada. Ou quer ou não quer. Ou ama ou não ama. O problema é na vida adulta, quando a postura não muda. Se isso ocorre, o adulto também fica querendo essas garantias, hesita em colocar na balança o que gosta e o que não gosta no outro, não aguenta conviver com as próprias dúvidas sobre o parceiro.

Por conta disso, a maioria das pessoas que se diz apaixonada está apaixonada por uma ideia própria, não por uma pessoa. E é aí que a situação se complica. Os casais têm tanta necessidade desse final feliz que ‘‘ficam’’, namoram e se casam distantes do parceiro real e próximos de um parceiro imaginário, com absoluto horror ao questionamento. Tornam-se quase incapazes de ponderar o que vale e o que não vale a pena na relação. Querem a certeza do sucesso, convictos de que é a maior segurança contra uma separação. Engano.

Aí vem a decepção. Muitos pulam da crença para a descrença total. Na prática, a maioria casa imaginando que vai dar certo e apenas uma minoria se mobiliza de fato para conquistar uma relação duradoura e feliz. Mas e o que faz um casamento dar certo?

Os felizes são os que estão à vontade com os próprios sentimentos, que conseguem entender que não devem ser inflexíveis, que se permitem gostar e não gostar do parceiro, que cuidam da relação exatamente porque não têm a certeza do futuro, mesmo que já estejam casados há anos.

Se você tem dúvidas quanto ao seu casamento, parabéns, você está no caminho certo. Questionar e não ter garantias sobre o o amor eterno do parceiro é que nos faz cuidar da união. Quem tem certezas relaxa. Quem busca o final feliz com obstinação desvaloriza o dia-a-dia da união. Final feliz só interessa no cinema. Na vida real, o bom mesmo é o caminho feliz, ou seja, compartilhar cada momento. Aos que estão bem no casamento e aos jovens casais, eu alertaria: cuidado com o pessimismo dos mais velhos que não foram felizes. Desprezem “profecias” do tipo “aproveitem enquanto estão no começo, porque depois que caí na rotina…” Ao mesmo tempo, não pequem pelo excesso de otimismo. Para isso é válida aquela frase obrigatória em divulgação de bebidas alcoólicas: “Aprecie com moderação”.

De toda forma não deixe de desfrutar o casamento. E, quando estiver bom, não o encare como um jogo ganho, porque a partida não tem hora para acabar. Aprenda a valorizar cada dia com o outro. Se lhe faltam modelos de casais felizes, saiba que existem sim aqueles que são capazes de aprimorar uma relação de anos e anos, que conquistam um vínculo estável, feliz, e continuam bem porque conseguem descobrir e redescobrir a riqueza que uma união saudável pode ter.