Evite que os filhos de sua união anterior boicotem a nova relação
Quando alguém que já foi casado e tem filhos se apaixona, quer começar uma nova vida a dois e sente a justa esperança de ser feliz. É claro que as crianças representam grande parte de nossa felicidade. Mas é preciso estabelecer limites no convívio entre pais e filhos. O objetivo é não deixar que se instalem dificuldades maiores e desnecessárias com o parceiro.
Um novo casamento é outra oportunidade de ser feliz. A pessoa provavelmente amadureceu, é mais velha e identifica circunstâncias que não quer voltar a experimentar na vida a dois. Tem, portanto, boas chances de utilizar as vivências antigas para reciclar sua capacidade de viver bem com alguém.
A despeito disso, muitos acabam transformando a oportunidade em uma situação penosa ou até abandonam a boa relação conjugal, não devido a incompatibilidades com o novo parceiro, mas por dificuldades com os próprios filhos. Estes, claro, despertam nos pais sentimentos incomparáveis com qualquer outro tipo de ligação. Isso é ótimo. Entre numerosas situações relacionais, são eles que fazem os pais, ao menos durante boa parte da vida, sentirem-se realmente necessários à sobrevivência de alguém. Ainda assim, é preciso relativizar a dependência mútua, para não supervalorizá-la a ponto de torná-la excludente de outras. Ocupar-se demais com as relações verticais, de pais a filhos, em detrimento das horizontais, entre parceiros, gera complicações para todas as partes.
O quadro que descrevi me faz lembrar os procedimentos de emergência em aeronaves. Há um momento em que o comissário de bordo adverte que, quando as máscaras de oxigênio caírem, o adulto deve usar a sua primeiro e só depois socorrer a criança. E é importante que essa medida de segurança fique bem clara, pois o instinto de garantir a sobrevivência do filho pode colocar as duas vidas a perder, já que normalmente o pai ou mãe desprezam o fato de que precisam estar bem para atender às necessidades de sua cria.
Infelizmente, vejo muitos casamentos sendo desfeitos em função de a prole ser a prioridade constante. Sobretudo no casamento em que o filho passa a ser enteado do parceiro do pai ou da mãe. O problema complica-se quando alguns filhos, atentos ao fato de que o pai ou mãe sentem-se responsáveis pela separação anterior, abusam. Fazem o que querem com os progenitores, mostram tristeza inconsolável, ameaçam ir embora, questionam se são amados. Aí o problema se instala. É comum que, nesse clima, qualquer observação do parceiro sobre os filhos seja sentida como desamor. Mas nem sempre é assim. Por estar menos envolvido com os enteados, o companheiro observa e aponta dificuldades e vícios de relação entre pais e filhos que merecem atenção.
Se você se reconhece nessa situação, pense que o novo casamento é outro vôo e mais uma tentativa de ser feliz. E que é importante entender as carências humanas de relacionamento. Primeiro ponto: tudo tem o seu momento e espaço. O coração é como uma loja de departamentos: o espaço para o parceiro não tem nada a ver com o canto reservado aos filhos. São necessidades diferentes. Segundo: ao contrário do que muitos imaginam, quando essa distinção é respeitada, observa-se o oposto; ou seja, pais que estão bem em seu relacionamento horizontal atuam como modelos mais saudáveis, portanto encontram-se em melhores condições para os verticais. A esse respeito a psicanalista Françoise Dolto escreveu: “Para se desenvolver, a criança precisa de palavras que lhe assegurem que o adulto de fato uma relação privilegiada com outro adulto”.
Também é bom lembrar que os filhos crescem e, em alguns anos, se tudo der certo, estarão independentes, talvez casados, ocupados com seus novos problemas. E aí?
Onde se encontrará aquele companheiro ou companheira que poderia estar bem com você nessa nova fase da vida, quando os pais já não são imprescindíveis para a sobrevivência física e psicológica do filho? Sendo assim, por você e por seus filhos, não adie as oportunidades com o novo parceiro. Se você estiver bem, uma das conseqüências poderá ser um segundo núcleo familiar saudável e feliz.