Compradora compulsiva em geral tem um parceiro com ideias antigas
São frequentes os casos de mulheres com hábitos perdulários bancadas pelo companheiro, como mostrou a novela América. Usam o consumismo desenfreado para disfarçar carências afetivas. Por trás delas, no entanto, quase sempre se encontra um parceiro também inseguro e autoritário, que se utiliza da situação para reiterar sua autoridade e manter o poder em casa.
A novela América da Globo, mostrou um casal que tem a relação comprometida por confusões desencadeadas em consequência de um distúrbio conhecido como oneomania, ou seja, compulsão por compras.
Os personagens Irene e Laerte, interpretados pelos atores Daniela Escobar (36) e Humberto Martins (38), sacudiram casais que viram sua história reproduzida na ficção.
Na vida real, são comuns os casos de mulheres com hábitos perdulários bancadas pelo marido. Comprar em demasia, vale ressaltar, não é exclusividade feminina. Mas as mulheres são maioria — segundo pesquisas, a relação é de quatro mulheres para cada homem. Uso o exemplo da ficção para falar da compulsiva por compras pois quero jogar o foco na mulher com dificuldades psicológicas sérias e no parceiro que é conivente com o problema.
Por mais que a revolução sexual e a disputa pelo mesmo mercado de trabalho tenham aproximado homens e mulheres, o desejo do homem de ser o provedor e da mulher de ser cuidada e provida sobrevive em muitos casais. Em parte deles, de maneira complementar, se desenha um quadro de sérias dificuldades em relação ao dinheiro. A maioria dos casos mostra que, por trás da perdulária, existe um superprovedor com visão tradicional dos papéis feminino e masculino. Ele se utiliza do dinheiro para disfarçar problemas afetivos. De um lado, aparece uma mulher frágil que preenche seus vazios emocionais, como falta de realização profissional, dificuldade de relacionamento e baixa auto-estima, com o consumo desenfreado. Do outro, surge um marido autoritário, inseguro, que exerce o poder em casa fazendo um jogo inconsciente em que detém e controla o dinheiro.
Na prática, ele até se queixa do comportamento da parceira, ótimo artifício para reiterar a sua superioridade. Ao pagar dívidas e cheques sem fundo da mulher, ao se endividar para cobrir seus gastos, o provedor experimenta um misto de desespero e prazer mórbido pela supremacia sobre a companheira. Assim, o caos emocional mantém o financeiro e o do casamento.
Quando a situação se torna insustentável, a primeira saída que vem á mente do marido é restringir o acesso da mulher ás compras. Retira dela, então, o cartão de crédito e os talões de cheques. Mas isso dura pouco. Ao primeiro sinal de tristeza da parceira, o provedor se angustia e lhe devolve tudo. É a forma perversa que ele encontra de recuperar a auto-estima, o que promove bem-estar fugaz. Para a psicóloga americana Susan Forward, a relação saudável ou complicada com o dinheiro começa na infância, em função do uso que os pais fazem dele para educar os filhos. É por isso que não bastam ações restritas ao âmbito comportamental . Não adianta só tentar organizar a conta corrente conjunta, pois a solução está na vida conjunta. É necessário um trabalho mais profundo, que dê ao casal a compreensão do papel do dinheiro na vida de cada um e na relação.
A personalidade da mulher consumista se encaixa na do homem que usa o dinheiro para amenizar seu complexo de inferioridade, marcar seu espaço, demonstrar afeto ou conquistar e reconquistar a parceira. O encaixe é perfeito, mas não a relação. Nesses casos, a saúde financeira pode ser recuperada quando o casal estiver disposto a rever suas motivações individuais e o relacionamento.
Os parceiros devem lembrar-se que amor e dinheiro são uma combinação altamente inflamável, embora, na verdade, parte dessas discussões não seja de fato por causa do dinheiro. Em muitos casos, ele só deflagra conflitos preexistentes, que resultam de dificuldades individuais e do casal, atiça desavenças e provoca rompimentos. Por outro lado, quando o caso, movido pelo amor, se dispõe a rever sua dinâmica, o dinheiro assume o que deveria ser seu verdadeiro papel: o de servir aos dois, promovendo qualidade de vida e fortalecendo a relação.